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Aqui contém cenas explícitas de minha nudez ao avesso, para melhor visualização feche seus olhos. (Mary Backes)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

...é a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa. E enquanto vivo me estremeço toda.


Fixo instantes súbitos que trazem em si a própria morte e outros nascem - fixo os instantes de metamorfose e é de terrível beleza a sua seqüência e concomitância.
Agora está amanhecendo e a aurora é de neblina branca nas areias da praia. Tudo é meu, então. Mal toco em alimentos, não quero me despertar para além do despertar do dia. Vou crescendo com o dia que ao crescer me mata certa vaga esperança e me obriga a olhar cara a cara o duro sol. A ventania sopra e desarruma os meus papéis. Ouço esse vento de gritos, estertor de pássaro aberto em oblíquo vôo. E eu aqui me obrigo à severidade de uma linguagem tensa, obrigo-me à nudez de um esqueleto branco que está livre de humores. Mas o esqueleto é livre de vida e enquanto vivo me estremeço toda. Não conseguirei a nudez final. E ainda não a quero, ao que parece.

Esta é a vida vista pela vida. Posso não ter sentido mas é a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa.

(Clarice Lispector - Água Viva)
 

4 comentários:

Gugu Keller disse...

Nenhuma nudez me sacia. Quero sempre despir mais.
GK

Rafael disse...

Eu ando estado totalmente nu... sem nenhuma barreira entre as farpas e meu coração...

QUIM disse...

Minha querida saudades..está lindo aqui..me desculpa a ausência..mas tenho andado atulado de trabalho..que estejas bem..me escreve quero saber de ti..bom fim de semana.

Maria Borges disse...

Amores, obrigado pela visita!
Quim amor, espero que já tenha estado mais descansado, quero falar com você. vou escrever-te sim!
Beijos!